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Dor pélvica crônica: quando o problema está no músculo

Muitas dores pélvicas que se arrastam por meses têm um componente muscular: os músculos do assoalho pélvico ficam tensos demais, como o ombro travado de quem passa o dia no computador. A fisioterapia pélvica trabalha esse músculo, junto com o médico e, quando é o caso, com o psicoterapeuta.

Por Dr. Gustavo Travassos, fisioterapeuta pélvico

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Quando a dor pélvica vem do músculo

Sim, muitas vezes a dor pélvica crônica está no músculo. A pelve tem órgãos, nervos e ossos, mas também tem um grande conjunto de músculos, o assoalho pélvico, que funciona como o chão da casa onde ficam a bexiga, o útero, a próstata e o intestino. Quando esses músculos ficam tensos o tempo todo, eles doem.

Dor crônica é a dor que não vai embora: ela se arrasta por meses, vai e volta, e muitas vezes a pessoa já fez vários exames que vieram normais. Depois que o médico investiga as causas que pedem tratamento médico, o músculo é um suspeito que vale a pena avaliar.

Essa dor pode aparecer na região genital, no ânus, no baixo ventre, no cóccix e até na lombar. Se a sua queixa principal é a dor na relação ligada à endometriose, temos um artigo só sobre isso. Aqui o foco é a tensão muscular.

O ombro travado lá embaixo

Pense em quem passa o dia inteiro escrevendo no computador. No fim do dia, o pescoço e o ombro estão duros e doloridos. O Dr. Gustavo usa esse exemplo para explicar o assoalho pélvico: acontece a mesma coisa lá embaixo.

O nome técnico é hipertonia, que quer dizer músculo com tensão acima do normal. Ele conta que, no começo da profissão, atendia muito mais fraqueza muscular, e que vem vendo crescer a hipertonia, porque as pessoas não conseguem mais relaxar. Vida corrida, celular, dez assuntos ao mesmo tempo: o estresse tensiona os músculos do corpo inteiro, e os do assoalho pélvico entram nessa conta.

Alguns sinais de que a tensão pode estar envolvida:

  • Dor ou ardência na relação ou no exame ginecológico.
  • Dificuldade para fazer cocô, com sensação de que sobrou.
  • Pontada no ânus que vem de repente e depois passa.
  • Dor na parte baixa das costas sem causa clara.
  • Xixi que demora a sair ou parece não esvaziar tudo.
“Tem que dar flexibilidade, porque o músculo duro não é o músculo flexível.”Dr. Gustavo Travassos, em vídeo no canal

Músculo tenso não é músculo forte

Essa é uma das ideias que o Dr. Gustavo mais repete. Um músculo duro parece forte, mas não é: ele está travado, sem flexibilidade, e por isso também perde força. Nas palavras dele, toda mulher que é tensa também tem fraqueza. Não necessariamente flacidez, mas fraqueza.

Por isso, em dor, sair fazendo exercício de aperta e solta que se acha na internet pode piorar. Se você contrai um músculo que já está contraído demais, aumenta a tensão. Primeiro é preciso devolver a flexibilidade, e só depois treinar força e coordenação. Quem decide essa ordem é a avaliação, e o artigo sobre exercícios de Kegel explica quando contrair não é o caminho.

Emoção e corpo: a dor também guarda história

O Dr. Gustavo observa no consultório que muitas mulheres jogam as emoções na região genital. Medo, trauma, tabu, um relacionamento difícil: tudo isso pode virar tensão no músculo. Quando a região é trabalhada, essas emoções às vezes aparecem durante a sessão, e tem paciente que chora. Está tudo bem.

Ele também nota o contrário: o riso relaxa. Quando a pessoa ri, a musculatura solta e o trabalho fica mais fácil. Por isso ele prefere um ambiente leve e respeitoso, com conversa e com o toque só quando você permite.

Isso não quer dizer que a dor é coisa da sua cabeça. A dor é real, e o músculo está mesmo tenso. Quer dizer que corpo e emoção andam juntos, e que muitas vezes o cuidado precisa olhar para os dois.

Como a fisioterapia pélvica trata a tensão

Tudo começa pela avaliação: a conversa e, com a sua permissão, o toque. É o toque que mostra onde o músculo está duro e quais pontos doem mais, os chamados pontos gatilho. Muitas vezes um lado está mais tenso que o outro, e isso só se descobre tocando.

O recurso central é a liberação miofascial: uma pressão feita com o dedo, com movimentos curtos e lentos, nunca bruscos, para soltar o músculo e a fáscia, a película que envolve o músculo. Ela pode ser feita na entrada da vagina, no canal anal e em músculos mais profundos do quadril, como o piriforme. Durante a técnica, ele pergunta o tempo todo quanto está doendo numa escala de 0 a 10. Algum desconforto pode existir, mas não deve passar de 7.

Outros recursos entram conforme o caso:

  • Radiofrequência, que aquece o tecido em profundidade e ajuda o músculo a relaxar.
  • Eletroestimulação e biofeedback, para o músculo voltar a contrair e soltar na hora certa.
  • Dilatadores, quando a dor está na penetração.
  • Respiração e exercícios para fazer em casa.

Quando procurar um fisioterapeuta pélvico

Se você convive com dor na pelve há meses, já passou pelo médico e não encontrou uma explicação que ajude, vale fazer uma avaliação com um fisioterapeuta pélvico. Você não precisa de pedido médico para isso. Dor não é normal, e você não precisa se acostumar com ela.

A dor crônica costuma pedir mais de um profissional. O médico investiga e trata o que é da área dele, o psicoterapeuta cuida das questões emocionais quando elas pesam, e o fisioterapeuta pélvico cuida do músculo. Um trabalho não substitui o outro.

A primeira consulta é uma conversa. O toque só acontece com a sua permissão, e pode ficar para outro dia. O plano é montado depois da avaliação, porque cada caso tem o seu tempo.

Dúvidas sobre este tema

Dor pélvica crônica pode ser emocional?

A dor é física e real, mas as emoções podem aumentar a tensão do músculo. Por isso, em alguns casos, o cuidado junta a fisioterapia pélvica com o acompanhamento psicológico.

Homem também tem dor pélvica por tensão muscular?

Sim. O assoalho pélvico existe nos dois sexos, e a tensão pode causar dor no períneo, no ânus e na região genital do homem também.

A liberação miofascial dói?

Pode haver desconforto, principalmente nos pontos mais tensos. O fisioterapeuta ajusta a pressão o tempo todo, perguntando quanto está doendo, para que o desconforto fique num nível que você tolera.

Dr. Gustavo Travassos

Quem atende: Dr. Gustavo Travassos

Fisioterapeuta pélvico formado em 2005. Por 15 anos cuidou do serviço de fisioterapia uroginecológica do Instituto de Urologia Santa Rita, em São Paulo. Hoje atende em consultório próprio na Vila Clementino e tem nota 5,0 em 250 avaliações de pacientes no Doctoralia. Conheça a trajetória

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