Nem uma gotinha é normal
Não, perder xixi ao tossir, espirrar ou dar risada não é normal, nem quando é só uma gotinha. Muita gente convive com isso por anos achando que faz parte da vida, porque a mãe perdia, a tia perdia, a avó perdia. Ser comum não quer dizer ser normal.
A Sociedade Internacional de Continência, a entidade que mais estuda o assunto no mundo, define incontinência urinária como qualquer perda involuntária de urina. Não importa a quantidade. Não importa se foi pouquinho ou se é só de vez em quando.
Existe a exceção da exceção. Uma vez na vida, num esforço muito grande, escapou um pouco? Tudo bem. Mas se acontece sempre que você tosse, espirra, pula, pega um peso ou até levanta da cadeira, isso já é um sinal do corpo pedindo atenção. Mesmo que seja uma vez por mês.
Por que o xixi escapa quando você tosse ou espirra
Quando o xixi escapa só no esforço, o nome é incontinência urinária de esforço. É o tipo mais comum de perda de urina, de longe o que o Dr. Gustavo mais atende no consultório. Se a pessoa está sentada, quietinha, vendo um filme, não vaza. Vaza quando faz força.
O mecanismo é simples. Quase todo movimento do corpo usa a barriga: tossir, espirrar, rir, andar, levantar, pegar o neto no colo. Cada vez que a barriga contrai, ela aperta a bexiga lá dentro. Essa pressão desce para a uretra, o canal por onde o xixi sai.
Quem segura essa pressão é o assoalho pélvico, um conjunto de músculos que forma o chão da pelve. Ele tem duas funções principais: sustentar a bexiga, o útero e o intestino, e fechar a saída da urina e das fezes, como uma cinta. Se esse músculo não está firme, a pressão da barriga vence o fechamento, e o xixi escapa.
“Se você perdeu uma gotinha de xixi, já é considerado uma perda de urina. Não adianta vir com a desculpa de que foi só um pouquinho.”Dr. Gustavo Travassos, em vídeo no canal
Pegar peso não é desculpa
Muita gente explica a perda assim: foi porque eu peguei peso. Só que o corpo foi feito para segurar. Um assoalho pélvico que funciona bem continua fechado mesmo com bastante carga, mesmo com a barriga fazendo muita força. Se escapa, é porque o músculo não está dando conta.
E deixar para depois costuma cobrar o preço. Com os anos, a perda tende a aumentar. O mesmo músculo que fecha a uretra é o que sustenta os órgãos, então o enfraquecimento que hoje aparece como um escape pode, lá na frente, virar a bexiga baixa. Quanto mais cedo você cuida, mais simples tende a ser o caminho.
Vale um cuidado extra na academia. Agachamento pesado e exercícios em que você empurra a barriga para baixo aumentam a pressão sobre a bexiga. Academia não é proibida, mas fazer força do jeito errado sobrecarrega exatamente o músculo que já está com dificuldade.
Qual é o tratamento de primeira escolha
Para a incontinência urinária de esforço, a Sociedade Internacional de Continência aponta a fisioterapia pélvica como tratamento de primeira escolha. Ou seja, é o primeiro caminho a considerar, antes de pensar em cirurgia. Faz sentido: se a causa está no músculo, o tratamento é treinar o músculo.
O Dr. Gustavo costuma explicar com uma casa. Você construiria uma casa em cima de uma rocha ou de um pântano? Qualquer correção feita na região se apoia no assoalho pélvico. Se esse chão está fraco, a base continua fraca. Por isso o fortalecimento do músculo vem primeiro.
Fortalecer, porém, não é sair fazendo aperta e solta em casa. O assoalho pélvico é um músculo interno, e muita gente não consegue senti-lo sozinha. Na avaliação, o fisioterapeuta pélvico vê como está a força, a resistência e a coordenação desse músculo, e monta um treino específico para você. E nem sempre o problema é só fraqueza: há quem perca xixi com o músculo tenso demais, e aí o caminho começa por soltar, não por apertar.
- Avaliação do músculo, com toque só se você permitir
- Treino de força, resistência e coordenação sob medida
- Biofeedback, um aparelho que mostra a contração num gráfico
- Orientação para tossir, pegar peso e se exercitar protegendo o assoalho
Quando procurar um fisioterapeuta pélvico
Se o xixi escapa ao tossir, espirrar, rir, pular ou pegar peso, mesmo que seja pouco e mesmo que seja de vez em quando, já é hora de procurar um fisioterapeuta pélvico. Não precisa de pedido médico para marcar.
E não precisa esperar perder xixi para cuidar. Assim como você escova os dentes antes de ter cárie, conhecer e treinar o assoalho pélvico também é prevenção. Se você conhece alguém que acha normal perder um pouquinho, conte para essa pessoa que não é, e que existe tratamento.



